04/jun/07
Por Harley Alves
Mano Pet, Frei Sacão e Dona Sacoleta são moradores da periferia de São Paulo, mas colegas seus podem ser vistos em muitas outras regiões metropolitanas. O hobby preferido de Mano Pet é compor letras rap. Em suas letras tudo o que ele pede é um pouco de atenção para suas causas, em defesa do meio ambiente e em prol do reconhecimento de sua condição, de quem não quer ficar à toa em um aterro qualquer.
As autoridades locais não vêem essas necessidades como prioridade e a seus vizinhos parecem pouco importar. Indignados com esse descaso, os três decidem elaborar um manifesto, autoproclamado ‘A Revolta dos Reciclados’, cuja mensagem nada mais diz que ambos ainda existem, têm vida útil e muito a oferecer.
Mano Pet é feito de garrafas de plástico. Frei Sacão é um saco de lixo sábio, que veio de uma casa paroquial e Dona Sacoleta, uma sacola de mercadinho que sonha ser uma sacola de butique. São todos personagens de um espetáculo infantil, apoiado pelo projeto Cor da Rua, que trabalha com aqueles que sofrem de maneira mais trágica os mecanismos de exclusão modernos: a população adulta de rua. Sua bandeira principal quer inseri-los novamente no dia a dia das grandes cidades. Não à margem dos fatos, mas como colaboradores legítimos da sociedade. Inclusão que evidenciam através da arte, da decoração e do trabalho com os recicláveis.
Eles são os exemplos mais evidentes de que a cor, a arte e a criatividade ajudam na melhoria da qualidade de vida. E, no caso desses seres humanos, de uma maneira muito anterior à moda de se falar em preservação do meio ambiente. Eles fazem isso através da reciclagem, tirando do riacho aquela cadeira velha que foi um dos motivos das enchentes nas casas da vizinhança, dando uma nova vida a um objeto que parecia morto.
Bagaços de cana, garrafas pet, plásticos, caixas vazias de alho e de bacalhau. Tudo ganha vida nova nas mãos e pela criatividade dos participantes do projeto, que mostram as maravilhas que a determinação, uma boa pintura e um pouco de verniz podem fazer. Tudo com um quê de peças criadas nos tradicionais antiquários e galerias de arte de São Paulo. Restaurando esses objetos, involuntariamente copiam um pouco de sua própria imagem, dando uma nova aparência ao que ninguém mais creditava valor algum.
Tal qual ao exemplo fictício do teatro, esses personagens reais querem apenas mostrar que têm algo a falar. À medida que transformam o que anteriormente deixara de ser valorizado, de pouco em pouco reencontram a si mesmos, resgatam sua identidade e lembram o que de fato nunca deixaram de ser: pessoas de verdade.
Para entender melhor a proposta do projeto Cor da Rua, é preciso voltar alguns anos no passado. Em 1955, um grupo de religiosos decidiu visitar túneis e marquises na cidade. Seu trabalho voluntário consistia em rondas noturnas em busca da população de rua. Sopas embaixo do viaduto formavam a receita que, em vez de oferecer o caldo pronto, convidava a população da rua a trazer cada ingrediente. “E nesse fazer da sopa, cada um sentia-se responsável pelo prato. Ninguém estava ali apenas para se alimentar, mas para ajudar a cozinhar e cada um contribuía a seu modo”, diz Ivete de Jesus, uma das irmãs que iniciaram o projeto. “Com um legume aqui e um tempero ali, todos faziam a sua parte. E a refeição surgia pelas mãos de todos, para que cada um sentisse que era parte do que estava acontecendo.”
O diferencial do ‘sopão’, como ficou conhecido o prato, era que seu preparo era comunitário. A iniciativa foi ganhando volume com o passar dos anos, migrando para o oferecimento de serviços e parcerias com outras entidades com fins semelhantes. Hoje, o projeto faz parte das ações da ONG O.A.F., Organização de Auxílio Fraterno, que deixa a cargo dos projetos Cor da Rua e Oficina Escola o ensino da arte e marcenaria a jovens em situação de vulnerabilidade e adultos em situação de rua.
Atualmente, o processo está centralizado em uma casa doada por empresários italianos, conhecida entre os que a freqüentam como a Casa Cor de Rua. Se por um lado, o local em nada se assemelha à suntuosidade do tradicional evento de decoração, por outro, a Casa Cor de Rua não perde em bom gosto para eventos mais glamourosos.
“Em toda parte cabe um pouquinho de decoração”, brinca a psicóloga Priscila Argondizo, uma das coordenadoras do Cor da Rua, que aponta a produção de peças de marcenaria e mosaicos como o carro-chefe do projeto, todos desenvolvidos pelos jovens e adultos que treinaram. “Eles aprendem um novo ofício, o que se reflete primeiramente na auto-estima. São conhecimentos que adquirem, que podem ser utilizados para a geração de renda e em diversos momentos de suas rotinas”, comenta Priscila.
Percorrendo as antigas vielas do bairro Liberdade, na capital paulista, encontram-se o atelier e show-room onde são expostos os artigos e suvenires fabricados pelos integrantes do projeto. Eles recebem uma bolsa-auxílio para dar continuidade às aulas e através da O.A.F.
Ironicamente, a atual preocupação em torno do meio ambiente e o incentivo à separação do lixo nas grandes cidades empobreceu a matéria-prima dos voluntários do Cor da Rua. “Cuidar do meio-ambiente também é um dos motivos da nossa campanha. Nosso trabalho está envolvido com essa conscientização, mas como hoje as empresas e os condomínios entraram na onda da reciclagem, tem sido um pouco mais difícil encontrar peças em bom estado”, avalia a coordenadora.
“É excelente para a ecologia, mas é uma ação que tira o material reciclável da mão do catador, que é quem vive disso. Mais do que as peças, a gente vende a idéia e a postura de olhar para essas pessoas e reconhecer esse trabalho. Não são indigentes. Têm seu valor e a sua vida. Há 30 anos não se falava com tanta freqüência nesse fator da ecologia. E o catador é quem vive da reciclagem, antes de qualquer um promover esse assunto. Antigamente, poucos sabiam o que essas pessoas faziam, e hoje a catação é a profissão da população de rua, reconhecida e legalizada”, argumenta.
Os trabalhos em mosaicos são feitos pelos adolescentes que os procuram, alguns deles filhos dos catadores envolvidos com a proposta, ou aos demais projetos, como a COOPAMARE, a cooperativa dos catadores autônomos de recicláveis, entre outros, que, à medida que ganham vida própria, continuam vinculados a O.A.F., mas de forma auto-sustentável.
No desenvolvimento de peças maiores, há o auxílio de monitores que ensinam a pintar e a combinar as cores de modo mais técnico. “Mas não é uma linha de montagem, eles têm liberdade para criar. A gente vê esse trabalho com muita alegria e esperança. Com o tempo você começa a perceber que eles criam um estilo, que vai surgindo, conforme vão aprendendo a lidar com as tintas. Vemos que eles expressam muitos sentimentos e talentos através da cor, no processo de formação dos mosaicos”, repara a irmã Ivete, admirando o trabalho de seus protegidos.
A Casa Cor da Rua expõe as peças desenvolvidas pelas entidades que formam a Organização Auxílio Fraterno, com renda revertida para a continuidade do projeto. Nela estão os lustres e luminárias feitas pelo projeto Luz da Rua, que utiliza o bagaço da cana como material e as peças feitas a partir de latas de tinta da Associação Minha Rua Minha Casa. Artesanato na garrafa pet, cortinas feitas de papel e trabalhos em marcenaria completam a arte de diferentes itens, que vão de enfeites de mesa a móveis e suvenires.
O objetivo é mostrar a vida útil não só dos materiais, mas também o valor de homens e mulheres que estão na rua e foram esquecidos. Os personagens do início, Mano Pet, Frei Sacão e Dona Sacoleta aprovam a idéia.
Veja um trecho da peça ‘A Revolta dos Reciclados’.
Para saber mais sobre o projeto e, quem sabe, oferecer a sua ajuda, veja os endereços dos projetos:
O.A.F. – ORGANIZAÇÃO AUXÍLIO FRATERNO
www.oaf.org.br
COR DA RUA
Rua dos Estudantes, 491 -
Liberdade – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3272-9724.
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