10/jun/08
* Por Bete Branco
Há uma pressão dos arquitetos para implementar certas cores nos catálogos de fabricantes?
Não há mais pressão porque normalmente não são consultados. Vejo muitas falhas nas cores oferecidas principalmente por uma falta de ajuste às preferências de cada cultura. Os profissionais sentem essa falta, principalmente a falta de catálogos disponíveis no mercado, mas não conseguem ser atendidos. Incluo-me entre eles acompanhando essa defasagem desde que abrimos o mercado do Brasil para toda a fartura de cores que há hoje.
Como você avalia a tendência de cores dos anos passados na arquitetura?
Quando falamos de tendências já consagradas pela humanidade, podemos facilmente perceber que elas respondem às necessidades físicas, psicológicas e comportamentais de uma sociedade, durante um período. Até que os pigmentos começassem a ser produzidos em laboratórios industrialmente (pigmentos sintéticos), a humanidade sofreu restrições de matéria-prima e conseqüentemente das cores que elas reproduziriam em sua arquitetura. As tendências de cores são influenciadas pelo momento sócio-político-econômico em que vivemos.
Nas épocas das grandes guerras há depoimentos de que “o mundo era cinzento”. Até os alimentos tinham menos cores. Durante a Segunda Guerra, há um episódio relatado por uma autora, em que as crianças de um refeitório na Europa se recusaram a comer gelatinas cor de rosa, preferindo as incolores, pois se assustaram com a pigmentação, como se aquilo “não fosse de comer”!
Aqui no Brasil, na década de 60, tivemos uma grande expansão imobiliária. Muitos apartamentos novos à venda e antigos imóveis disponibilizados para aluguel. Foi justamente a época em que começamos a supervalorizar o uso do branco nas pinturas de paredes: cor considerada “neutra” para comercialização mais fácil desses imóveis. Naturalmente há outros fatores que influenciaram e influenciam a cor na arquitetura.
Qual é o objetivo comercial da padronização de uma tendência de cores?
O objetivo é concentrar a produção. Isso gera uma massificação e restrição de cores na maioria dos produtos manufaturados. Entretanto, há mecanismos do mercado que compensam essa tendência e favorecem a personalização, muito bem vindos, como em nossa indústria de tintas o sistema tintométrico, com suas máquinas de tingir tintas na própria loja e colorímetros para descobrir composições de cor específicas dos materiais. Além disso, profissionais que vêm se capacitando a aplicar as cores não só focados em sua finalização estética, mas sim, muito mais preocupados com uma aplicação consciente das potencialidades das cores.
Como você enxerga a tendência de cores?
Vejo qualquer padronização no mercado como uma conveniência comercial. Respeito isso como um facilitador para a produção e não podemos deixar de considerar que, em alguns casos, ela reflete um momento cultural e propõe novas experiências de combinações e composições. Entretanto, somos nós, os profissionais, que temos que dosar sua influência em nossas escolhas. Um profissional precisa se desprender dos rótulos e dos clichês ditados pela moda para exercer sua criatividade de forma ilimitada e eficiente, sempre priorizando as necessidades do seu cliente.
Como você emprega as cores em seus projetos?
Começo sempre tentando descobrir como posso surpreender positivamente as pessoas. Todos nós gostamos desse “presente”. Para tanto, começo fazendo uma boa análise do perfil e das necessidades do meu cliente e do que ele espera receber do seu ambiente. A partir daí já dá pra começar a criar um padrão cromático a ser trabalhado. Preciso também avaliar sua aplicação funcional, suas conveniências para manutenção, valores, etc. No caso das empresas, preciso considerar sempre as cores da logomarca como cores sagradas!
Como as cores contribuem para a arquitetura promocional?
As cores são mensagens que enviamos e recebemos, ou seja, são códigos de uma linguagem não-verbal. Relacionamento comercial se baseia muito mais em linguagem não-verbal, indireta, do que direta. As cores falam por si do estilo da empresa, expressam o produto, atraem o público-alvo e estimulam seu funcionário levando bem estar, motivação, valorização, competitividade, boa comunicação, bom relacionamento, atenção, zelo, seriedade, descontração, enfim, tudo o que quiser levar efetivamente, sem precisar de uma “circular” para exigir isso.
Segundo o lançamento da tendência de cores pelo mercado, o amarelo (abacaxi maduro) é a cor do ano. Como você acha que esta cor irá estar presente nos projetos de arquitetura promocional?
De várias formas! Veremos na renovação de enormes fachadas, na atualização em interiores de lojas que lidam diretamente com tendências, proporcionando novas composições cromáticas com antigas logomarcas ou, nos ambientes, fachadas ou logos de novas marcas do mercado, por exemplo.
Este tom de amarelo é de uma alegria e leveza bem dosadas, considerando que apesar de aberto, tem um toquezinho de ocre queimado no fundo de sua composição.
São muito adaptáveis. Podem compor ambientes infantis em tons médios, ambientes adultos e até masculinos em suas tonalidades mais fortes e ambientes clássicos e delicados em seus tons mais suaves, considerando-se seu degradê.
Só por ser amarelo já podemos esperar ambientes estimulando maiores agitações, alegres, de fácil comunicabilidade e rotatividade. Muito bons para vendas, cursos e lançamentos!
* Bete Branco é estilista, designer e consultora de cores no Rio de Janeiro. Tem ministrado vários cursos sobre cores, é autora de vários projetos e concedeu entrevistas para vários órgãos de imprensa. Conheça mais assuntos abordados pela autora em seu site: www.betebranco.com.br.
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