Por
Nelson Bavaresco*
Atravessar
na música é quase um pecado mortal para um maestro. Numa
orquestra sinfônica é uma falta grave, como também
o é numa pequena banda. Na bateria de escola de samba, o atravessador,
se persistir, cai fora.

Mas
estamos falando da cor, especialmente da harmonia cromática,
onde "atravessar" funciona diferentemente da harmonia musical.
Para entender a idéia do "atravessamento", imaginemos
um edifício da cor, com muita ordem e hierarquia onde, entretanto,
é permitido atravessar na harmonia. Nesse palácio da cor,
a base é o espectro cromático de cor-luz, sobre a qual
foi erguida sua estrutura de cor-pigmento.
No
primeiro andar ficam as cores (P) primárias RM (rosa-magenta),
AC (azul-ciano), AM (amarelo); no segundo, ficam as cores (S) secundárias
AN (anil), VE (verde), VR (vermelho); e no terceiro, as cores (T) terciárias
VI (violeta), AZ (azul), TU (turquesa), VL (verde-lima), LA (laranja),
PU (púrpura).
Como
podemos observar, nosso exemplo é uma edificação
construída à base de cúpulas pontiagudas, cujo
arquiteto talvez tenha se inspirado no Taj-Mahal.
A
lei da nossa casa pode ser denominada como "Lei das Misturas",
para as quais existem princípios científicos próprios.
A nossa lei é apresentada aqui de maneira simplificada, como
sendo: a) "se misturarmos duas cores primárias (P) entre
si, em partes iguais, obteremos uma nova cor, tão pura como as
que lhe deram origem, mas que será uma cor secundária
(S)"; b) "as misturas de duas secundárias nunca resultam
uma primária".
A
lei confirma que, quando da mistura de dois matizes em partes iguais,
o resultado será um novo matiz. Misturando-se amarelo com azul
dá verde e com vermelho dá laranja etc.
Em
nosso palácio, dá para perceber também que as linhas
da base e das abóbadas são, na verdade, ligações
entre as cores, mostrando como se forma, em cada andar, as cores P,
S, T.
A
cor RM-P (rosa-magenta - primária) não existe no espectro.
Ela pode ser criada a partir da mistura de luzes coloridas das extremidades
do vermelho e do violeta, sendo designada no diagrama de cromaticidade
CIE como "linha magenta". Essa cor existe concretamente na
forma de tinta (cor-pigmento).
Ao
olharmos para a figura outra vez, podemos perguntar: o que significam
aquelas linhas vermelhas, pontilhadas? As linhas pontilhadas são
os atravessamentos, ou seja, as ligações harmônicas
atravessadas, fora da ordem natural com que as cores se apresentam no
palácio e também quando dispostas num círculo cromático,
que podemos chamar de "seqüência harmonia".
Não
são meras ligações, como se pode imaginar, vendo-se
apenas a figura, mas ligações importantes que se dividem
em diretas e em indiretas. As diretas ligam cores complementares e as
indiretas ligam cores não complementares. Ambas produzem as chamadas
"cores neutras" (N), fundamentais para um certo tipo de harmonia
cromática.
As
cores neutras (N) se relacionam a um conceito fundamental estabelecido
originalmente por Goethe, em sua "Farbenlehre". O conceito
de "polaridade" gera os princípios desse tipo de harmonia
que, em homenagem a Goethe, tomamos a liberdade de designá-la
por Harmonia Goetheana.
Entre
as cores complementares de ligações diretas, os atributos
inexistentes numa das cores se encontram na outra. Isso quer dizer que,
se atribuirmos uma certa quantidade de pontos para cada par de cores
a um determinado atributo, esses atributos estarão parcialmente
pontuados numa e na outra cor, normalmente em proporções
diferentes.
Vamos
supor que, no par amarelo/anil, a sensação de temperatura
do amarelo seja avaliada como uma cor de 8 pontos para quente, e que
para a cor anil seja atribuído apenas 2 pontos, isto é,
que o total das cores, quando juntas, seja de 10 pontos. Isto significa
um equilíbrio entre a sensação de pouco calor para
uma cor de pouca luminosidade e de bastante para o amarelo, uma cor
de alta luminosidade. Juntas, elas estabelecem um equilíbrio
natural como se cada uma tivessem 5 pontos. Isso ocorre também
com os outros atributos, estabelecendo inclusive, que os elementos de
polaridade é que definem o contraste visual que duas cores possam
ter, pelo fato se serem de cores de polaridade direta, ou seja, cores
complementares.
*Nelson Bavaresco é pesquisador da cor e diretor
do SCC - Sistema de Cores Cecor, e-mail: nbavaresco@cordesign.com.br
- www.cordesign.com.br.
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