14/mai/04
Por
Harlley Alves
Durante
toda a história, arte e cor se dividiram para retratar os mais
diversos momentos da humanidade. Elas continuam ainda mais ativas nos
dias de hoje, representando os tons políticos e estéticos
do dia-a-dia das grandes cidades. A observação foi feita
pelo professor e artista plástico Juan José Balzi, em
palestra na Associação Pró-Cor do Brasil, dia 29/4,
quando abordou o tema "A cor na arte de rua", apresentando
exemplos em que a cor toma conta das manifestações de
um povo.
Na
palestra, o artista, que é também professor de História
da Arte, sustentou que uma pintura é, sobretudo, 'a arte de transmitir
sentimentos através da cor'. Lembrou que em algumas cidades espanholas
da Andaluzia o branco é instituído por códigos
sociais como a cor local e quem dribla essa regra, ao pintar sua casa
de uma cor diferente dessa, pode ser punido.
O
branco foi adotado por motivos físicos e o cal utilizado nas
pinturas visa amenizar o calor local. Outras cidades, como Paris, também
têm a cor como símbolo de seus costumes. Segundo Balzi,
a capital francesa é reconhecida pela cor cinza, que caracteriza
o tom bucólico da cidade. O acinzentado dos telhados locais,
proveniente das telhas produzidas em ardósia, soma-se ao nublado
do céu, complementando um efeito que se tornou marca da cidade.
Outro
caso é a cor terra-siena que, para muitos, é apenas um
marrom quente. No entanto, a pesquisa desse nome mostra que a cor surgiu
na cidade de Siena, de onde se retirava a terra que produzia essa cor,
revela Balzi. Ao emprestar seu nome à cor, Siena fez com que
essa fizesse parte de sua própria história e, assim como
em outras localidades da Itália, essa tonalidade passou a identificar
suas edificações, criando escalas de cores baseadas em
cidades com tons de terra.
São
inúmeros os exemplos em que a cor faz parte das manifestações
dos habitantes de determinadas comunidades. Segundo Balzi, é
o caso da própria pintura da fachada das casas ou problemas de
poluição visual causados pela propaganda comercial e os
pixadores.
Ao
defender a estética, o artista recorre ao civismo e à
tentativa de conscientização de que uma cidade com visual
sem harmonia não faz bem.
"É
preciso levar às pessoas, além da idéia de cidadania,
noções de composição para que possam distribuir
harmonicamente elementos ou imagens dentro do espaço que essas
ocupam. Partindo desse fator, cores, tintas, pinturas ou mesmo propaganda
não deveriam ser dispostas indiscriminadamente nos espaços
públicos", observou o pintor.
"É
preciso desenvolver o sentido de solidariedade para que as pessoas percebam
que a pintura da fachada de um lar não trata apenas de oferecer
cor a um muro externo e, sim, de dispor cores nas paredes de uma casa
maior, que é a cidade em que vivemos. Se cada um colocar a cor
que bem entender, sem avaliar, não haverá harmonia, não
haverá estética", continuou.
Outro
problema na visão do artista, é a carência de tintas
para fachadas voltadas à atividades artísticas, como a
pintura de murais. O resultado disso, comentou, é o que se vê
pelas ruas: muros pintados sem harmonia, com cores ruins, já
que as cores vibrantes, que são as que proporcionam bons resultados,
custam mais caro, disse ele.
Embora
muitos queiram expressar seus ideais, nem tudo o que se vê pode
ser enquadrado como arte. É o caso das atividades apresentadas
por certos grafiteiros e pixadores, lembra Balzi, que inclui experiências
com esses grupos em sua obra.
Para
Balzi, a arte é uma virtude ou habilidade para desenvolver certa
atividade e o artista profissional é aquele que adquiriu os conhecimentos
necessários para desenvolver seu ofício. "O artista,
acima de tudo, tem o dom de representar através de uma comunicação
subjetiva que as cores, traços, formas e gestos transmitem. Artista
é aquele que, entre outros atributos, tem a sensibilidade para
transmitir sentimentos através da cor."
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