27/jan/10
“O desfile dos pavões” é um dos títulos do capítulo 21 do livro Uma Breve História do Mundo*, de autoria do professor Geoffrey Blainey, publicado pela Editora Pensamento. No capítulo com título “Os presentes que o Novo Mundo escondia”, o autor lembra que no século 16, Espanha e Portugal venceram a primeira fase das colonizações e conquistas, em parte porque eram fortes nas navegações e em parte porque eram os dois países europeus que se encontravam mais próximos da América Central e do Sul. No total, seis nações da Europa ocidental tinham colônias nas Américas, mas os territórios espanhóis e portugueses continuavam sendo de maior importância e, juntos, provavelmente produziram a maior parte das riquezas.
Das Américas vieram muitos presentes como o abacaxi, a pimenta-de-caiena, o cacau, o tabaco e também as matérias-primas que deram origem às cores vivas. O primeiro presente para os espanhóis trazidos da América Central e do Sul foram o ouro e a prata. De acordo com o autor, as viagens européias também abriram a Ásia para o mundo. Durante séculos, uma infinidade de produtos e plantas asiáticos atravessou toda a extensão da Ásia por terra, mas agora tudo fluía pelas rotas do mar. O chá da China encontrou seu caminho para a Europa, assim como a misteriosa porcelana e muitas outras manufaturas.
Caulim, a matéria-prima da porcelana, era uma palavra que originalmente parecia estranha à maioria dos ouvidos europeus. A palavra era, na verdade, o nome de um morro na China de onde essa argila branca e macia era extraída. Um sacerdote francês com espírito empreendedor enviou amostras de caulim à Europa por volta de 1700, destacando que era fundamental para a manufatura de porcelana. Em pouco tempo, garimpeiros acharam depósitos semelhantes de caulim na Alemanha, na França e na Inglaterra.
Da China, vieram novas flores de jardim para a Europa. O crisântemo era a favorita. Uma flor simplesmente amarela, até o século 8º, era honrada na China como a mais nobre das flores e louvada em verso pelos poetas. Com ela, adornavam-se os mercados de rua em partes da China, quando as flores do verão haviam passado de sua época de viço. Em 1600, os chineses haviam criado aproximadamente 500 variedades, das quais algumas chegaram à Europa com a nova onda de importações de flores.
As cores vivas
O Novo Mundo também deu aos ávidos europeus um prazer que não era comum: deu-lhes as cores vivas. Ainda em 1500, a maioria das cidades e vilarejos era fria em suas cores. As cabanas podiam receber uma demão de cal, mas raramente eram pintadas. As casas de madeira tinham uma aparência pardacenta, embora, na Holanda, os tijolos chegassem a dar um tom vermelho aconchegante.
Reconhecidamente, as casas de pedra podiam ser realçadas pela própria cor da pedra, mas as pedras de construção geralmente eram escolhidas não pela cor, mas pela conveniência. Em muitas cidades, a pedra era naturalmente escura e, com o passar dos anos, até as pedras claras eram aos poucos manchadas pela fumaça de madeira, uma amostra do que a fumaça de carvão viria a fazer de forma mais completa. Em algumas catedrais medievais, os vitrais ficavam realmente bonitos quando o sol incidia sobre eles, mas essas cores eram destacadas exatamente porque a maioria das ruas da cidade não tinha brilho algum.
As roupas dos europeus eram geralmente pardas, exceto as usadas pelos ricos. Os artigos não eram embrulhados em cores vivas, porque qualquer forma de embrulho era muito cara. Os papéis de embrulho eram pura extravagância e nunca coloridos. Faixas e bandeiras eram atraentes porque eram muito mais ricas em cor do que as roupas usadas pela maioria dos cidadãos.
Um milagre das recém-descobertas Américas foram as novas cores. Os mexicanos, bem antes da chegada dos espanhóis, haviam observado como um inseto sem asas, alimentando-se da planta de cacto, e estando prenhe, continha uma cor escarlate de grande intensidade. Eram necessários 70 mil insetos mortos para produzir somente meio quilo de pó de cochonilha, que então podia ser usado para criar tinturas das mais vivas. O escarlate há muito era o nome de uma cor usada em faixas e roupas, mas o escarlate feito na Inglaterra a partir de cochonilha ofuscava a visão. O novo escarlate tornou-se a palavra do momento, sendo até conferida à febre escarlate ou escarlatina, que na década de 1670, foi diagnosticada pela primeira vez como uma doença por si mesma e, não, como um tipo de sarampo ou varíola.
A rota marítima ao redor da África abriu as portas para uma fonte barata da cor azul. O índigo, planta da qual o mais fino azul era extraído, era cultivado em Bengala. Cortado nos campos e transportado em fardos por carroças até pátios de secagem e tanques de água, a planta do índigo liberava sua indoxila através de um processo de fermentação.
Por muitos séculos, consignações pequenas e caras da tintura do índigo proveniente da Índia ocasionalmente haviam chegado ao Mediterrâneo pela rota terrestre, mas agora ela começava a chegar aos milhares de baús de madeira acondicionados em navios holandeses e portugueses. O índigo produzia um azul tão brilhante que a cor azul tradicionalmente extraída da ísatis européia parecia desbotada. Em pouco tempo, nos recintos mais elegantes de Amsterdam e de Veneza, homens e mulheres usando chapéus e casacos, capas e túnicas de azul índigo desfilavam como pavões. Até o exército francês abandonou o uniforme castanho avermelhado e vestiu-se de azul.
Pau-brasil
De acordo com Geoffrey Blainey, as cores podem parecer um espelho de vaidades, mas foram importantíssimas para a ascensão do Brasil. Os portugueses foram os primeiros a alcançar a costa do Brasil, em 1500, depois que os 13 navios da esquadra de Cabral desviaram-se da rota para a Índia, em virtude dos ventos tropicais.
Daí em diante, os navios portugueses ocasionalmente usavam os portos brasileiros como abrigo na metade do caminho da longa rota até a Índia. Levaram consigo nativos brasileiros, macacos e papagaios em pequenas quantidades, mas seu presente principal era a árvore do pau-campeche. Essa árvore era tão apreciada na Europa que levou diretamente a abertura do porto de Pernambuco, onde, protegidos pelos recifes de corais, os navios portugueses podiam ancorar com segurança.
Uma variedade inferior crescia no leste das Antilhas e era conhecida como pau-brasil. Quando descascada e mergulhada num barril de água, a árvore de pau-brasil produzia uma cor vermelha conhecida, algumas vezes, como o suco do Brasil e apreciadíssima pelos tintureiros da Europa.
* Uma Breve História do Mundo, 336 páginas. Bestseller internacional, de autoria de Geoffrey Blainey, publicado pela Editora Fundamento, em 2009. Do original em inglês com o título "A very short history of the world", produzido em 2004, por Penguin Group.
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