*Por
Patricia Douat Garcia
Temos por hábito aceitar o mundo a nossa volta pelo seu valor aparente, sem nos
preocuparmos em analisar ou conhecer o caminho percorrido por
determinados valores que hoje estão de tal maneira integrados em
nossa sociedade e cultura que, praticamente, os consideramos parte
da natureza. Assim é com o uso das cores, roupas, calçados,
bolsas, a decoração de nossas casas, a estrutura arquitetônica
e urbana das cidades e até nossos hábitos sociais e culturais.
É interessante observar as peculiaridades do ser humano.
Enquanto as ciências são disciplinas que requerem frieza e ação
repetitiva para atingir resultados, os maiores esforços
intelectuais e psicológicos são feitos nas áreas abstratas como
artes e religião. Talvez por sua impossibilidade de comprovação
em termos materiais e serem, na sua totalidade, um trabalho do espírito
do homem.
Desde
que os primeiros homens começaram a usar as cores como forma de
magia para atrair, através de seus poderes, a tão preciosa caça,
as cores passaram a ter um papel cada vez mais fundamental e simbólico
em todas as culturas do mundo.
Dos
babilônios aos egípcios as cores eram parte fundamental da
cultura e religião, definindo e expressando toda a força mística
destas. Era também através da magia das cores que a classe
dominante controlava a política e dominava o povo. Ambos os povos
usavam e abusavam do fascínio e das emoções que o uso
indiscriminado das cores exercia sobre os indivíduos. Seus palácios,
templos e monumentos eram pintados com cores vivas e contrastantes
que bombardeavam os sentidos, de maneira a intimidar todos os que
deles se aproximavam. O povo em geral usava vestimentas de cores
neutras, como branco, bege ou cinza e as cores vibrantes eram
reservadas à elite fazendo com que esta pudesse usar o poder que
elas exerciam sobre os sentidos, de maneira intimidante, para
garantir seu domínio.
Já
na Índia e na China o poder das cores é usado há milhares de
anos como forma de energia que influencia todos os aspectos da
vida. Os centros energéticos do corpo, conhecidos como Chakras
pelos budistas e hindus são regidos pelas cores, de maneira que
seu uso deve ser estudado e todo cuidado deve ser tomado para que
o equilíbrio entre o material e o astral se mantenha inalterado
fazendo com que a saúde, a sorte e a sanidade sejam sempre
preservadas.
As
culturas orientais acreditam que as cores, além de controlar os
aspectos físicos e espirituais do ser humano, exercem uma imensa
influência sobre as situações do cotidiano. Por isso é
importante que toda e qualquer vestimenta seja examinada de um
ponto de vista ideal para a situação que deva ser controlada.
Situações específicas requerem cores específicas. Religião,
guerra, política, cada qual com sua combinação correta para
obter-se uma solução desejada.
Na
tradição hebréia, nos mistérios da Cabala, as cores também exercem poderosa influência demonstrando
assim que, basicamente, todas as culturas e povos do mundo, de uma
maneira ou outra, tiveram oportunidade de observar e comprovar a
força das cores e a veracidade sobre sua capacidade de
influenciar os acontecimentos.
Na
cultura ocidental foi a religião que fez uso das cores de maneira
a simbolizar diferentes aspectos espirituais, reforçar sua
autoridade, intimidar seus seguidores, mantendo uma aura de mistério
e respeito. Diferentes cores são usadas para simbolizar
diferentes posições hierárquicas dentro das diversas religiões.
Padres, pastores, bispos, cônegos ou papas, cada qual usa de uma
específica cor, de maneira que possam ser identificados
instintivamente por aqueles com quem se relacionam, criando assim
uma situação em que são vistos em uma posição
psicologicamente destacada.
A
ciência moderna com seu desdém a respeito de tudo o que considera irrelevante,
classificando como crendices populares, foi incapaz de relegar a
essa categoria a influência exercida pelas cores em todos os
aspectos de nossas vidas. Com todos os esforços feitos para
destruir mitos e crenças, a eficácia do uso das cores como
ferramenta de controle do meio ambiente vai se confirmando em
todos os aspectos avaliados. Da psicologia ao urbanismo e passando
por todos os aspectos esotéricos possíveis, o uso das cores é a
forma mais eficaz e agradável de controle sobre nossa vida.
Mito e realidade: duas coisas que sempre
foram consideradas diametralmente opostas entre si. Mas o que
exatamente é mito? Segundo as enciclopédias mito é tradição
que, sob forma de alegoria, deixa entrever um fato natural histórico
ou filosófico.
O objetivo do mito, como ciência, é
explicar o mundo e tornar seu significado inteligível. Seu propósito
científico é oferecer ao homem uma maneira de influenciar o
universo, de se certificar da possessão material e espiritual do
mesmo. Em um universo cheio de incertezas e mistérios o mito
intervém para introduzir o elemento humano. As nuvens no céu; a
luz do sol; um mar tempestuoso; todos esses fatores incompreensíveis
perdem seu poder aterrorizante tão logo são relacionados com a
sensibilidade, intenções e motivações que cada indivíduo
experimenta diariamente.
Mito e as verdades científicas
constantemente contestadas, são diferentes aproximações da
verdade, do enigma dos enigmas, o qual, após tantas realizações
e descobertas, ainda permanece firmemente indecifrável. De certa
maneira a concepção da existência do átomo no início do século
XX era um mito que não só comprovou-se ser verdadeiro como também
foi ultrapassado.
Contudo, com a ajuda do mito resolvemos
milhares de problemas diários e atingimos equilíbrio moral e
mesmo sabedoria.
A intensa ligação entre nossos sentidos
e as emoções que as cores evocam intensificou-se de tal maneira
que, hoje, fazem parte de nossa inteligência emocional e estão
gravadas em nossa memória genética.
O negro nos dá uma sensação de apreensão
por estar ligado à escuridão da noite quando nossos ancestrais
mais primitivos se viam a mercê dos predadores. Apesar de
milhares de anos terem se passado, e do homem ter alcançado as
estrelas, tais sensações de pavor e impotência; de incerteza e
desespero, provocados pela insegurança de uma vida desprovida das
certezas que o conhecimento traz. Fez com que o homem jamais conseguisse superar o trauma de
sua infância neolítica.
Do mesmo modo, porém com um efeito não tão
sinistro, o azul claro nos dá a sensação de liberdade de um céu
claro e limpo e das paisagens abertas onde o perigo poderia ser
previamente detectado e mantido a distância, proporcionando ao
homem moderno uma sensação de poder e bem estar.
O amarelo e o vermelho evocam o calor do
sol e a proteção do fogo respectivamente, nos dando uma sensação
de conforto, segurança e relaxamento proporcionados pelas lembranças
de um abrigo seguro contra as intempéries e os inimigos que
rondavam a noite sem, no entanto, criar coragem para enfrentar o
poder destrutivo da mais nova e poderosa arma do homem, o uso do
fogo.
O
uso dado às cores, conforme os hábitos das diversas culturas
mundiais durante o decorrer dos séculos, tinha o objetivo de
obter resultados dirigidos diante de situações específicas como
ferramenta de manipulação psicológica que, segundo a sabedoria
popular, tem provado ser muito mais acurada do que se imaginava.
|
Pitágoras,
o filósofo grego, acreditava que a cor branca continha, além
de todas as outras cores, todos os sons. Esta crença
reflete-se na propriedade da cor branca de representar a
divindade, sinceridade e transformação nos simbolismo do
som dos sinos e gongos.
Muitos
dos antigos templos e das atuais igrejas são brancas.
As
tradições nipônicas consideram o branco a cor do luto.
|
|
Na
Idade Média o negro era associado à Saturno, o porco, ao
Domingo e ao nº 8.
Em
Madagascar uma pedra negra é colocada em cada um dos quatro
pontos cardeais, sobre o túmulo, para representar a força
da morte.
Já
para os antigos egípcios a negra lama do Nilo representava
um renascer e os gatos pretos eram considerados duplamente
sagrados diferindo das crenças ocidentais da Idade Média,
nas quais os gatos e lebres pretos eram considerados familiares,
isto é, mensageiros do demônio.
Na
Roma antiga sacrificavam-se bois pretos para satisfazerem os
deuses das profundezas.
Nas
Ilhas Britânicas existem histórias de um cão negro, parte
fada parte fantasma que, se visto, acaba com o bom humor do
infeliz que estiver olhando na sua direção.
|
|
O
Vermelho é uma cor mágica em muitas culturas, representa o
sangue, a essência da vida.
Ervas
eram amarradas com uma fita vermelha e esta era, por sua
vez, amarrada em volta da cabeça para aliviar a dor da
enxaqueca.
Os
chapéus dos gnomos a capa das fadas e o chapéu dos magos são, muitas vezes descritos
como vermelhos. E muitos fantasmas tem sido vistos enrolados
em flanela vermelha.
A
cor vermelha é bastante desagradável para os maus espíritos,
por essa razão, na China, os rabichos dos sábios eram trançados
com uma fita vermelha para afastar os maus espíritos e as mães
faziam o mesmo com o cabelo das crianças ou as costuravam
dentro do bolso pela mesma razão.
No
Japão, crianças com catapora são mantidas em um quarto
totalmente vermelho, vestidas com roupas vermelhas para
apressar o processo de cura.
Os
ingleses usavam lenços vermelhos no pescoço para afastar
os espíritos que causavam o resfriado e as runas dos povos
nórdicos eram marcadas em vermelho.
|
|
Os
corpos dos aborígines australianos são pintados com ocre amarelo nas cerimônias funerárias.
Na
China os magos escrevem seus feitiços em papel amarelo para
aumentar sua potência.
Na
Idade Média tanto Judas como o Diabo eram representados
vestidos de amarelo.
|
|
As
laranjeiras fornecem uma generosa colheita ano após ano e,
tanto nas culturas ocidentais como orientais, suas flores são
usadas pelas noivas como um símbolo de fertilidade.
|
| Púrpura/
Magenta e Violeta |
Púrpura/
Magenta e Violeta são, na verdade, representações de uma
mesma cor, que variam na intensidade de luz. É um tom
especialmente sagrado para as culturas romanas e egípcias
nas figuras de Júpiter e Osíris. Associa-se às dimensões sagradas, justiça, diligência,
nobreza de espírito, pensamento religioso, idade avançada
e inspiração.
Na
igreja católica o Púrpura/Magenta é usado pelos
sacerdotes para transmitir santidade e humildade.
Na
China o violeta simboliza a morte e é a cor das viúvas.
|
|
O
Rosa é outra cor ligada à deusa romana e grega do amor e
da beleza, Vênus e representa os aspectos mais suaves do amor e
bondade.
|
|
O
Dourado é o poder do sol e suas deidades como o deus egípcio
Ra e o deus grego Apolo.
Na
Idade Média os curandeiros prescreviam água ou licores com
folhas de ouro para a cura de problemas nos olhos e como
tratamento das doenças graves.
|
|
O
Deus dos Judeus ordenou aos israelitas que usassem um
barrado azul em suas roupas.
É
a cor das roupas de Odin, deus supremo dos povos Nórdicos.
O
deus hindu, Vishnu era azul.
É
a cor das roupas de Nossa Senhora.
Azul
era a cor sagrada dos Druidas; no dia 18 de Agosto, durante
a celebração do Eisteddfod no velho país de Gales,
druidas desejando obter o título de Bardos vestiam-se de
verde para a cerimônia; aquele que ganhasse o título
recebia permissão para fazer a leitura de um livro de runas,
era abençoado com uma espada e ganhava uma fita Azul. Daí
por diante o novo bardo se unia ao grupo tão honrado em
Gales.
Na
Escócia as pessoas usam roupas azuis para restaurar a
circulação.
No
norte da Europa, por volta de 1600, um pano azul era usado
no pescoço para evitar doenças.
Culturas
asiáticas acreditam que vestir ou carregar algo azul afasta
o mau olhado.
Nas
culturas orientais o azul é conhecido como o envelope áurico
que contém e sustém a vida.
|
|
Na
Irlanda o verde é associado às fadas e acredita-se que
pode dar azar devido a esta ligação. Entretanto se você
soprar gentilmente a lanugem do cardo ou do dente-de-leão
para ajudar as fadas no seu caminho, você pode usar esta
cor com impunidade.
No
antigo país de Gales, Verde era a cor usada pelos druidas
durante a cerimônia do Eisteddfod.
O
Verde é muito usado nos hospitais com base na crença de
que esta cor ajuda o processo de recuperação da saúde.
|
|
Nas culturas orientais acredita-se que o
Marrom incorpore toda a força natural do elemento terra. A
força vital do nosso planeta. |
As
culturas orientais acreditam que as estações, a natureza e até
os pontos cardeais exercem direta influência sobre nossa vida,
fazendo com que se tenha sorte, dinheiro e até uma vida amorosa
bem sucedida.
Em
todos os setores, se levarmos em consideração as cores dos
elementos e suas conotações temporais, podemos jogar com tons e
nuances de maneira a conseguir uma gama maior de opções, sem
obstante perder sua eficácia.
As
cores representam aspectos da natureza e trazem para nossa vida as
mágicas qualidades básicas dos elementos que representam.
A
mágica foi a primeira expressão espiritual do homem e vem
fazendo parte de nossa sociedade por milênios. Mudando de forma e
denominação em relação direta com as mudanças políticas e
sociais de um povo, passou a ter diversos nomes e formas de
expressão como, fé, preceitos, conhecimento, sabedoria, mito,
religião, etc, porém continua basicamente o que sempre foi, pura magia.
A
definição oficial de magia, segundo os dicionários é: a arte
de produzir, por meio de certos atos e palavras, efeitos contrários
às leis naturais; fascinação; encanto; instituição baseada na
crença da força sobrenatural, regulada pela tradição e
constituída de práticas, ritos cerimônias em que se faz apelo
às forças ocultas e se procura alcançar o domínio do homem
sobre a natureza.
E
assim tem sido por mais de vinte e sete mil anos, desde as
primeiras manifestações do poder das cores nas paredes das
cavernas, aos mais insignificantes objetos, passando por casas,
carros e tecidos, pois todos também tem como objetivo manipular
as emoções do público consumidor com seus estilos e design, usando as cores para garantir uma posição de
destaque em seu meio.
*Patrícia Douat Garcia faz parte da Associação Brasileira da Cor/ São Paulo, é
artista plástica, e colaboradora da revista virtual Modabrasil da
Universidade Anhembi Morumbi. É
consultora e especialista em psicodinâmica das cores, mitos e
culturas.
p-garcia@uol.com.br
|