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As cores

Amarelão no esporte é tema
de tese de doutorado na USP

A pesquisa desenvolvida pelo psicólogo Paulo Félix Conceição para a sua tese de doutorado na Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo explica o amarelamento das pessoas quando colocadas à prova em uma situação de estresse.

O estudo começou pela observação de que as pessoas ficam pálidas, amareladas, quando em situação de estresse. Pesquisando o tema durante o curso de mestrado, ele discutiu muito com seus mestres a questão do estresse biológico, ou seja, como um organismo reage diante de um estímulo estressor. Com base nesses dados, iniciou o trabalho, que é inédito no Brasil e no mundo. A pesquisa, que contou com o apoio de equipamento tecnológico de ponta, aborda a questão do bem-estar social por meio do esporte. Envolveu a participação de atletas do alto rendimento nas modalidades de vôlei, ginástica artística e handebol, entre eles alguns que foram à olimpíada de Pequim, em 2008.

De acordo com o psicólogo, a palavra "amarelar", bastante conhecida principalmente no futebol, é característica do Brasil e, segundo o dicionário Houaiss, de língua portuguesa, é uma expressão regionalista do Maranhão, Piauí e Ceará, significa empalidecer, perder a coragem diante de uma situação perigosa.

O atleta que, diante de uma situação difícil, diante da pressão do público ou da eminência de fazer o gol, se sente acanhado, se sente tolhido e revela isso através da expressão, do gestual, através de alguma coisa que o espectador chama de amarelão. "Isso é o amarelão na linguagem popular", diz Paulo, acrescentando que o exemplo mais conhecido no Brasil e no mundo inteiro é o do Ronaldo "fenômeno" que, na Copa da França em 2002, "amarelou", não estava bem e entrou em campo mesmo assim.

De acordo com o psicólogo, se houvesse naquela situação um equipamento que pudesse medir o estresse do atleta, um controle científico da variação da cor da pele associado com a saúde, bem estar psicológico, o resultado da competição esportiva seria outro e não se escalaria o Ronaldo, considerando o grau de importância, de profissionalismo e daquilo que representa o futebol para o Brasil.

Paulo Felix diz que foi a partir dessas observações que desenvolveu sensibilidade para cor e, quando foi para a saúde, pôde perceber que as pessoas mudavam de cor e que isso podia estar relacionado com o estresse e com o bem estar psicológico.

Na pesquisa de campo com mais de 30 atletas foi usado um espectrocolorímetro para medir a variação de cor antes e depois das competições. Segundo Paulo Félix, o aparelho mede aquilo que a gente vê, coleta os dados de maneira objetiva e elimina as subjetividades. Ele observa que o uso do equipamento foi importante, mesmo porque a maioria das pessoas não percebe pequenas mudanças de cor. A avaliação do estresse pelo método espectrofotométrico, de acordo com o psicólogo, também é uma forma mais elegante que a hormonal, que envolve testes invasivos, no sentido de se colher amostras de saliva, sangue ou parte de órgão para exame.

O estresse

Paulo Félix explica que o estresse inclui a percepção de um estímulo, alguma coisa que faz perceber no ambiente como sendo ameaçador, hostil ou algum perigo em potencial. Isso desperta no organismo uma reação no sentido de se proteger. Ocorre que no convívio diário isso pode levar à doença porque o organismo para se recuperar precisa estar relaxado. Não podemos estar armados o tempo todo, ou atacar ou fugir. Todo o sistema imunológico vai se reconstituir numa situação onde a pessoa esteja tranquila, num ambiente em que se sinta segura.

Disso decorre a importância das cores do ambiente. "Ambientes com cores harmônicas e equilibradas proporcionam melhores condições de bem estar às pessoas, reduzem o estresse e permitem que elas se sintam mais seguras", assinala Paulo.

Uma estratégia de se atuar com o estresse é desviar o foco, fazer de conta que o estímulo não está próximo. O estresse é o resultado das expectativas, é a pressão constante para vencer sempre. A derrota significa um estressor potencial muito grande, por isso a intensificação do trabalho, o aumento das cargas. Há o perigo de se extrapolar o limite que todos nós temos. "Todo campeão é aquele que sabe reconhecer e que não ultrapassa o seu limite, que vai até onde pode render o máximo, no sentido de que possa ter uma vida plena e desenvolver seus potenciais, mas não correr uma maratona e depois cair morto", assinala.

O psicólogo acrescenta que aquilo que é estressante para um pode não ser para outro que aprendeu a lidar com aquela situação. Paulo considera a pesquisa importante porque identifica o atleta e pessoas de modo geral que não conseguem lidar bem com uma determinada situação e permite apontar estratégias que sejam mais eficazes para cada caso específico.

Aplicações do estudo

Segundo o psicólogo Paulo Félix, são muitas as possibilidades de aplicações da pesquisa, não só no esporte, mas na área da saúde como um todo. Nos últimos 30 anos, a pesquisa com o estresse, mesmo com a aceitação de seu estudo na universidade, sofreu muita relutância porque se trata de um campo de pesquisa que associa aspectos psicológicos com aspectos fisiológicos ou mente e corpo.

A aplicação pode ser feita também no diagnóstico e tratamento de fobias, síndrome do pânico e em todas as patologias em que estão implícitas variações da cor da pele. Segundo Paulo, a pesquisa resgata aspectos holísticos da saúde (corpo e mente) na Grécia Clássica, e na atualidade feita até de maneira leiga, porque muitos diagnósticos são feitos pela coloração da pálpebra e da pele mesmo, mas de maneira subjetiva. O médico faz o diagnóstico de algumas doenças pela observação da cor da pele amarelada, mas isso não é quantificado. De acordo com o psicólogo, futuramente vai ser possível inferir sobre o grau, a gravidade, a intensidade de precursores das doenças. As pesquisas precisam ser aprofundadas, mas todo o trabalho caminha nesse sentido, porque a aferição com equipamentos modernos é bastante precisa. Paulo Félix acredita que no futuro será possível se prescrever não só os treinamentos, mas avaliar estratégias de como lidar com o nível de estresse de cada atleta.

Veja também:

- A cor como informação

- Amarelo, uma cor para pessoas espertas

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