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Artes & Artistas

Uma arte em cerâmica
onde a cor é surpresa

24/ago/05

O ceramista cria a circunstância e o fogo faz o trabalho. Assim define Gilberto Jardineiro o que é a cerâmica de alta temperatura produzida em fornos noborigama, que podem atingir até 1400ºC. “Por isso, cada abertura de fornada é uma novidade, uma descoberta de combinações e formas, um encantamento com o trabalho, feito em parte pelo homem, em parte pela natureza”, diz o ceramista que, junto com a esposa, Kimiko Suenaga, integra o grupo que levou para Cunha, no extremo leste do estado de São Paulo, essa arte milenar de origem oriental.

O forno noborigama foi inventado na China e aperfeiçoado no Japão. A palavra “nobori” significa “rampa” e “gama”, “forno”. Por isto, o noborigama tem que ser construído em terrenos inclinados.

As montanhas de Cunha, já na divisa com o Rio de Janeiro, perto de Paraty, atraíram o grupo de ceramistas na década de 70. O português Alberto Cidraes convidou os japoneses Mieko e Toshiyuki para viver no Brasil e construir um forno à lenha. Eles estavam pensando em algum lugar entre São Paulo e Rio, no meio do caminho, e procuraram perto, Vale do Paraíba, “até porque onde tem montanhas e vales também tem barro e bastante eucalipto, e aconteceu que a prefeitura de Cunha ofereceu o ex-matadouro para o ateliê ser montado”.

O ateliê não existe mais, mas ao lado há uma das principais heranças daquela época: a oficina de cerâmica de Luiz Toledo. Toledo morava do lado do antigo matadouro. Foi um dos primeiros ajudantes do grupo de ceramistas. Nas horas vagas se dedicava ao torno e de tanto observar, aprendeu.

Luiz Toledo afirma que esse rumo da cerâmica que tomou foi muito gratificante. “É uma coisa de Deus. O cara vir do Japão direto para morar em Cunha, logo perto da minha casa”. Hoje, Toledo é reconhecido pelo estilo peculiar de suas peças. Ele se inspira no folclore e na tradição das paneleiras que viviam na cidade. Toledo acha que “é uma mudança diferente: de uma paneleira com um ceramista oriental”. Ele se diz uma mistura dos dois.

A escolha de Cunha

Os japoneses estavam em busca principalmente da lenha, matéria-prima essencial para a queima no forno noborigama. Kimiko conta que “lenha, lá no Japão, demora 30 anos para crescer, para ser cortada”. Em Cunha, há a maior concentração de fornos noborigama de alta temperatura da América Latina. No Brasil todo são 15, só lá são 5. Os ceramistas de Cunha produzem 25 mil peças por ano.

A cidade dispõe de bons solos produtores de argilas, necessárias à cerâmica. Tem também um clima propício, áreas onde o eucalipto reflorestado é plantado (serve de lenha para os fornos cerâmicos) e as paisagens, as curvas do horizonte e os céus, que tanto inspiram os artistas. Além de tudo isso, Cunha fica próxima do mar, a 45 km de Paraty, e próxima da serra, num local estratégico, de fácil acesso e ao mesmo tempo ainda muito preservado.

O ritual da cerâmica

A tradição é milenar, mas as peças seguem as exigências da vida contemporânea. O design é moderno, as cores seguem tendências. Todos os utensílios podem ir para o microondas, e são projetados com cautela.

Depois de moldada, a peça é guardada por alguns dias para secar antes da primeira queima no forno. A primeira queima chega a cerca de 850º C, podendo durar em torno de um dia. O produto desta queima é chamado entre os ceramistas de “biscoito”, bem mais duro e resistente do que o barro cru, embora ainda não tenha a coloração característica das peças prontas.

A coloração e a textura final serão dadas na segunda queima, que pode chegar a 1400ºC e durar um dia e meio. Nesta etapa, os biscoitos são decorados com cinzas das lenhas já queimadas, minerais, pó de cascas de arroz e outros materiais que no calor irão derreter e dar às peças o seu aspecto final. Dentro do forno, cada peça recebe temperaturas diferentes porque ficam em posições distintas em relação à fonte de calor e à presença de oxigênio na atmosfera do forno. Estes detalhes fazem com que cada peça tenha uma coloração e textura únicas, sendo difícil prever o resultado de uma fornada.

É do ateliê de Gilberto a idéia de transformar a abertura de fornada em um “happening”, com convidados, pessoas interessadas na cerâmica e visitantes do ateliê. O forno, que está esfriando a dois ou três dias, é aberto e as pessoas têm a primeira visão das peças novas, tirando-as das câmaras de queima e trocando impressões sobre o trabalho.

O forno noborigama é construído sob medida no terreno do ceramista e, mesmo os menores, comportam grande quantidade de peças. As temperaturas altas requerem grande quantidade de lenha. Isso faz com que, para racionalizar o trabalho, os ceramistas façam poucas queimas por ano, mas sempre com a capacidade máxima do forno. As queimas podem durar dias. Durante este processo os fornos são monitorados pelos ceramistas que constantemente acrescentam lenha e vigiam as temperaturas.

Tradição da cerâmica de Cunha

A cerâmica é uma tradição forte de Cunha, que vem desde tempos remotos. Os índios já trabalhavam com o barro. O trabalho continuou com as paneleiras, que fabricavam panelas e potes de barro na roça. Havia dezenas de paneleiras em Cunha. Hoje em dia, dona Benedita Maria da Conceição é a única paneleira ativa. Apesar dos 92 anos, ela ainda faz potes, panelas, canecas e moringas, que podem ser encontradas na Casa de Artesão.

Em 1975 foi construído o primeiro forno à lenha noborigama de alta temperatura, de origem oriental, que produz cerâmica de grande beleza e alta resistência. A partir daí, a cidade de Cunha foi se tornando o que é atualmente: um pólo cerâmico, cuja notoriedade está em expansão. Ela mantém cinco fornos noborigama e vários ateliês de cerâmica usando outros tipos de fornos, em anos mais recentes.

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