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Artes & Artistas

A arte, as cores e a tecnologia digital

06/jul/04

Há ainda quem torça o nariz para a arte criada com o auxílio do computador, mas o fato é que a cada dia aumenta mais o número de usuários dessa ferramenta que ajuda a fazer arte e que vem permitindo uma maior democratização dos conhecimentos artísticos, além de aumentar o número de interessados na arte tradicional. Alguns artistas com origem nas telas com tinta a óleo já integraram às suas criações o computador, assim como a fotografia, a serigrafia e outras formas de materialização de suas artes.

A artista plástica indiana Mamta Baruah Herland, atualmente residente na Noruega, é uma das defensoras das novas tecnologias que facilitam a vida dos artistas, reduzindo as operações manuais e aumentando o tempo para a criação. Mamta estudou Artes Visuais em Sidney, na Austrália, Design Gráfico na Noruega, e fez mestrado na Universidade de Southampton, na Inglaterra, defendendo tese sobre a arte digital.

O objetivo de sua dissertação foi investigar o impacto da reprodução da pintura artística por método digital em plotadoras e impressoras de jato de tinta. Segundo ela, a adaptação da tecnologia digital por artistas desafia concepções e suposições convencionais sobre o trabalho, qualidade e conceito de originalidade, além da sua aceitação no mundo da arte.

A artista explica que, com o computador, a imagem digitalizada pode ser 'sintetizada' com outras imagens criadas por métodos tradicionais. Através da Internet, os artistas colaboram com outros criadores geograficamente separados e as obras finais são apresentadas e vendidas na World Wide Web. Segundo Mamta, o uso da tecnologia digital na criação de arte pode influenciar as idéias, atitude e percepção dos artistas, resultando em possibilidades para uma mudança do índice, da forma e do contexto da obra artística.

A reprodução de uma obra de arte por método digital é outro ponto mencionado pela artista que destaca o alto grau de fidelidade hoje obtido. A cópia de pintura por impressora de jato ou plotadora digital, também conhecida como Giclée, palavra francesa que define a reprodução por pulverização mecânica de tinta, é um assunto relativamente novo e com pouca literatura relevante disponível. Mamta diz que o Giclée e a Internet representam também amplas possibilidades para os artistas, os quais passaram a ter maior liberdade para criar, a possibilidade de saídas para grandes formatos e maior exibição de seus trabalhos no mercado.

Na opinião de Mamta, os computadores representam um desafio tão dramático para a pintura quanto aquele produzido pela fotografia há cem anos. Segundo ela, a tecnologia digital não substituirá os velhos meios, mas incentivará novas maneiras de pensar e de trabalhar, criando uma sinergia e uma integração entre os processos velhos e novos, além ampliar a diversidade e liberdade para a criação. A artista explica que a arte atua sobre o campo das idéias e não sobre a tecnologia que, entretanto, oferece possibilidades de novas idéias.

O debate da originalidade de uma obra de arte não é uma discussão nova. Antigamente, as cópias eram feitas manualmente. O desenvolvimento de processos fotomecânicos no século XIX tornou possível copiar mecanicamente trabalhos de arte. A tecnologia digital, entretanto, levantou uma questão sobre a originalidade de uma maneira totalmente diferente, uma vez que a arte é projetada para a reprodutibilidade. Em um computador tudo é representado como números, dígitos binários (zeros e uns). Pode-se conseqüentemente discutir que o original de uma imagem digital é o código binário, intangível e não percebido até ser reproduzido por alguns meios eletrônicos - como um monitor ou uma cópia digital.

Mamta lembra que na obra “A Arte na Era da Reprodução Mecânica” (1936), Walter Benjamin já indicava essa 'aura' da arte, baseado na unicidade, escassez e ritual, que é eliminada pela reprodução mecânica e pela produção maciça. Em vez de ser baseada no ritual, a arte começa a ser baseada em uma outra prática - política. Ele dizia que quando isso ocorresse, a arte tornar-se-ia mais acessível e mais democrática, o que está ocorrendo.

A 'aura' e o valor, nos dias de hoje, foram substituídos por um outro ritual, o valor do exibição. A arte reproduzida digitalmente elimina a figura do trabalho original, uma falta que em parte pode ser compensada pela possibilidade de apreciação em muitos lugares. Há 70 anos, o poeta francês Paul Valéry (1871-1945) já dizia que as inovações podem mudar completamente as formas de fazer e entender arte. Assim, devemos esperar que inovações transformem técnicas inteiras de artes, afetando a própria invenção artística e provocando uma mudança em nossa noção de arte.

Mamta diz que a Internet e a impressão digital são usadas atualmente por um número crescente de renomados artistas que exibem e vendem seus trabalhos para compradores de várias partes do mundo. Os museus e as galerias internacionais com grande reputação também aceitam e compram as obras reproduzidas digitalmente, evidentemente por um valor bem mais acessível que a obra original e única.

Um outro capítulo para discussão é a produção de arte diretamente no computador. A possibilidade de infinitas cores à disposição dos artistas já é um fato, assim como ferramentas que fazem o papel de pincéis eficientes e precisos. As obras com relevo nas impressões digitais é uma questão de tempo.

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